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14 de março de 2013

Tiago Patrício - Trás-os-Montes


Assim como há quem diga que quando se morre não se vai logo para a morte, ponho-me para aqui a imaginar quais terão sido os sítios por onde andámos antes de sabermos que existíamos.

Só a partir do momento em que nos lembramos dela é que podemos dizer quando começa a nossa infância. Aquilo que não recordamos não existe. Por isso é tão significativo o que a nossa memória retém desse período – a surpresa, a verdade dos sentidos, a liberdade do olhar.

Pareceu-me que este romance tinha que ver com estas sensações. Lembro-me de uma impressão semelhante me ter ficado de uma outra história, que como esta, resolvi partilhar com gente de quem gostava – Panait Istrati, Os Cardos de Baragan, que redescubro num esforço googlíco de memória.

Ora, ao ler Trás- os-Montes, é essa sensação que me prende, a mesma de quando li Panait Istrati, num tempo em que nem sabia onde ficava a Roménia. De ambos me ficam as infâncias de sítios fechados, lugares que ninguém conhece, lugares que imagino no meio de montes e por detrás de muros que se abrem para mundos brilhantes, por caminhos de infâncias à beira da terra, de segredos que se escondem dentro dela e nos ensinam a viver.

 A crueldade infantil, a caça aos pássaros, a vergonha do corpo da mãe de Teodoro, as regras estritas de costumes em que os irmãos controlam as irmãs, o seu bom nome. As missas, as raparigas mais velhas com os cestos de ofertório em roupas de cabaré, o pecado, as revistas com mulheres, tenho de pecar, tenho de pecar senão rebento, diz Edgar.

Trás-os-Montes, um livro aonde apetece voltar, como a todas as infâncias.

M.ª João Carrilho (Grupo de Leitores da Biblioteca Municipal de Oeiras)

9 de dezembro de 2012

Opinião sobre "A vida passou por aqui" de Luís Francisco


Uma escrita violenta à medida do absurdo das nossas vidas – um realismo sem nenhuma complacência para com as convenções, a imagem social, o fingimento, o cinismo, a paz podre que atapeta as casas de muito antro familiar e lá se instala.

Nem vale a pena sequer fingir que temos esperança, que temos uma vida “… o azar estatístico de nascer português, uma porra de país em que parece que as coisas funcionaram e afinal não …” ,“…. jantares de merda a custar os olhos da cara, gajas e futebol” “ … e ninguém pode viver disto, desta romaria maquinal a bares e restaurantes.” Pessimista?

Serenidade, diz uma das nossas colegas, nem sempre, digo eu. Muito menos quando Luís Francisco refere certos lobbies da cultura, parece que os estamos a ver – uns “ … enciclopédia de sensibilidade artística…” outros, “ …para lhes regarem o ego”  –  opinião  mordaz de  um dos intervenientes da história  que se interroga se  “…havia de aproveitar para os mandar à merda.”

Poderosas, as palavras de machos muito machos “…a bexiga das mulheres deve ter sido feita na mesma fábrica de pigmeus onde lhes montaram o cérebro… “
Mas a cada leitor seu sentimento. Segundo o autor, há até quem tenha atribuído a estas personagens o epíteto de disfuncionais.

Se bem que concorde com os que encontram na narrativa uma diferença de tom a partir de determinado ponto – a que alguns podem chamar serenidade, cá eu leio outra coisa, provavelmente tão longe da verdade como qualquer outra, que nestas coisas é só a gente a falar, que nem sequer, ou ainda menos o autor saberá o que a alma lhe ditou.

Leio certa suavidade, a raiva do início a adormecer para o final da narrativa, tenho a ilusão de ter lido uma razão maternal. Não se ponham com gritos de que já cá faltava esta, pois Freud explica, e o amor de mãe blá, blá, blá. É que Lena e Joana se podiam chamar esperança e até Pedro imagina – Sinto que cheguei a bom porto. Mas nada é certo, que a narrativa se abre, tal qual a vida que passa por aqui, uma roda-viva.
O leitor a ler à sua maneira. Vale, digo eu, à nuestros hermanos.

O que gostaria de ter sugerido ao autor – Fale-nos da sua mãe. Ou das mães da sua vida. Podia ter aproveitado a breve referência que fez mas achei que não devia insistir – Aprofunde lá isso, Sr. autor.

Não conhecia o Luís Francisco. É sempre um risco que pode não compensar conhecer a pessoa que o autor é, ou mostra em público. Todos somos muita coisa e iludimos muito de nós, para o pior ou para o melhor. Não acontece com este homem de valores que vão rareando e, como disse a Rosa, transparente. Alguém que é capaz de admitir que chora, com lágrimas e tudo.

Maria João Carrilho
(Grupo de Leitores da Biblioteca Municipal de Oeiras)

29 de outubro de 2012

Opinião sobre "O intrínseco de Manolo" de João Rebocho Pais

João Rebocho Pais - "O intrínseco de Manolo"


Portugal, esta pequena aldeia em que se tomam as aparências pela realidade. A vida de cada vizinho, do outro, é sempre um exemplo do que está mal em contradição com aquilo que eu faço, não assumido e tanta vez escondido.

Rouba-se , mente-se, perverte-se,mas  ninguém é pecador, a não ser o outro.  Cá eu nem pensar, os outros ,sim. 

Arnaldo passa por ser um senhor, Manolo por ser corno. Idalina assume a sua escolha  – "Era  porca e pronto. Que se lixasse que se fodesse, que fosse morrer longe a cambada que por  ali crescia como ervas daninhas, a chusma de amorfos feito gente, a manada de falsas puritanas."

Se algum de nós tivesse o poder do narrador, de espreitar verdadeiramente a realidade, seríamos mais capazes de interromper as deliciosas histórias de intriga que nos contam com um  não é bem assim, sabe-se lá se, e até de nos olharmos ao espelho da verdade.

Ninguém é tão magnificamente mau nem maravilhosamente bom. Há sempre um outro lado das coisas. Julgamentos precipitados divertem-nos, à mesa da tasca do Toino ou em assembleias bem frequentadas .

E se há uma moral nesta história, que se conta com toda a ironia e ternura e que amiúde nos é servida em pratos nojentos picados por varejeiras ou cheiro a esgoto de latrina mal-cheirosa, é que nada é o que parece. Todos temos um íntrinseco. E muito poucos lá chegam.

Um hiper-realismo mesclado de apelo melancólico à natureza, seja esta  a azinheira ou a paisagem humana. Num estilo muito apelativo pelas emoções e sensações que provocam no leitor, da nostalgia à repulsa, ao vómito, ao riso e ao sorriso, que remete para o surreal ou  mesmo a estéticas  a que alguns chamariam “da crueldade”. 

Fiquei fã.

Maria João Carrilho
(Grupo de Leitores da Biblioteca Municipal de Oeiras)