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20 de março de 2013

António M. Marques, A Imperfeição do Presépio


Trata-se de um “ álbum de memórias” onde a protagonista, usando um discurso intimista, reflexivo e oralizante, vai falando de tudo o que lhe vem à cabeça. O interlocutor que nunca chega a aparecer vai “escutando” histórias, comentários, reflexões sobre a vida da protagonista e dos que a rodeiam, ao longo da sua vida, sobre vários acontecimentos sociais, históricos, etc. que têm lugar ao longo do século XX. Oriunda de uma classe desfavorecida, provavelmente iletrada, usa uma linguagem, simples, popular com regionalismos, etc.
 
Leitor do Grupo de Leitores da Biblioteca Municipal de Algés

18 de março de 2013

António Manuel Marques, A imperfeição do presépio


Narrativa da vida de uma mulher vulgar na segunda metade do século XX. O autor revela através da protagonista um discurso intimista e reflexivo sobre os universos conjugal, familiar, trabalho e amizades.


Grupo de leitores da Biblioteca Municipal de Algés

3 de março de 2013

António Manuel Marques, A imperfeição do presépio


O autor tem um tipo de escrita agradável, sem rodeios e floreados. Usa uma linguagem adequada não caindo no facilitismo popularucho mesmo quando descreve cenas mais duras. Destaca-se também o uso de termos populares adequados ao estracto populacional retratado. Encontramos aqui um retrato individual e colectivo percorrendo a sociedade do século XX e a força de uma mulher/mãe/avó como amiga e integradora em diferentes comunidades, passando pela evolução da sociedade entre 1930/1974.



Grupo de Leitores da Biblioteca Municipal de Algés

27 de fevereiro de 2013

António Manuel Marques - A imperfeição do presépio


É uma revisitação do passado. Ir ao fundo do mundo quando ainda o pastorio e as ceifas dos cereais eram o pão de cada ganho desde o nascer ao pôr do sol.
A vida, naqueles tempos, ainda era mais imperfeita, do que é hoje, com as migrações para as grandes cidades.

Augusto Freire Martins (Grupo de Leitores da Biblioteca Municipal de Oeiras)

13 de fevereiro de 2013

António Manuel Marques, A Imperfeição do Presépio


O início de cada capítulo com descrição e análise do conteúdo de uma caixa de recordações com fotografias e recortes antigos guardados no seu interior é o pretexto para a história de uma família de classe baixa, que migrou do meio rural do Ribatejo para os (então) arredores de Lisboa, mais precisamente para uma barraca na Quinta do Olival, Benfica. O narrador da história é uma mulher, da qual não sabemos o nome, tal como não sabemos de nenhuma personagem, pois tal não é necessário, pretende-se contar a história de uma família mas que se adequa à maioria das histórias das famílias que viviam naquelas condições. A história de uma mulher, esposa, mãe, que trabalha como empregada doméstica, com quatro filhos, dois dos quais vão combater para a guerra do Ultramar, com um marido analfabeto, com gosto pela pinga, que por vezes lhe arreia, que trabalha na escavação das canalizações de água e para quem “só quem tinha as mãos grossas do trabalho é que merecia o que comia. De resto não era trabalho. Tudo calões.” (p.46)
Interessante a descrição da zona de Benfica, “Eram quintas, seguidas umas às outras. Do Calhariz até a meio da Estrada de Benfica eram quintas, e era cada casarão… Com os portões virados para a Estrada, algumas pouco se alcançava lá para dentro, mas outras deixavam ver.
Doutras pouco se via. Abriam-se às vezes os portões quando se ia pelo passeio e de lá saíam os carros com as fanchonas dentro, com chofer e tudo. Aos poucos, tudo se foi indo. Do dia para a noite, apareceram aquelas matacões, prédios por todo o lado.” (p.54)
Algumas alterações ocorridas entre década 30 e 70 do século XX são descritas no livro de forma bastante curiosa, tal como a alteração das missas em latim, “E depois, a missa. Mudam até as palavras… Dizem que foi Deus quem escreveu a Bíblia e andam então a mexer nela. Que nem se fica a perceber estas palavras novas, nem se pode acompanhar a missa. Ainda sou do tempo em que se dizia a missa em latim. Sabíamos tudo de cor. Não percebíamos nada, mas era bonito e seguíamos todos pelo mesmo tom. Tínhamos tudo na ponta da língua e muito respeito.” (p. 70) ou o desejo de certos casais de que um filho fosse padre “Aquela beata falsa era uma rata de sacristia que para ali estava, a pô-lo no Seminário. Morria se não tivesse um filho padre;” (p.71).
Interessante a descrição da vergonha sentida por se encontrar grávida já com três filhos a seu cargo e em estado avançado de idade e o autor descreve isso de forma brilhante. “Se devia tê-lo? Sabia lá eu se devia começar já a vê-lo, a pensar em como seria… E se fizesse como as mais e o mandasse para a Casa Pia? A maioria é assim que faz: não se pode, desmancha-se. Eu sabia que era bem capaz de pôr aqui esta coisa nova e manter tudo como está, sem grandes voltas. Continuaria na labuta, sem me cansar, a olhar para todos, a rir-me, pronta a ajudar quem precisa […] Sim, sentia vergonha; já grisalha, a barriga a empinar-se em licença, esta coisa pequena a protestar quando andava de joelhos nas limpezas.” (p.16 e 17)
De notar que gostei especialmente da citação inicial, fazendo antever o óbvio, só escreve uma história desta forma, quem teve directo contacto com as personagens-tipo que nela habitam.
“Sim, toda a novela, toda a obra de ficção, todo o poema, quando é vivo é autobiográfico.
Todo o ser de ficção, toda a personagem poética criada por um autor faz parte do próprio autor.” Miguel de Unamuno,Como se faz uma Novela.
Acho que é uma história escrita de forma concisa, directa e crua, sem cair no aberrante ou exagerado. Lê-se num ápice e com agrado, pois transpira realidade em todas as linhas. Retrata o presépio de uma família portuguesa de condição socioeconómica baixa, do século XX. Recomendo.

10 de fevereiro de 2013

António Manuel Marques, A imperfeição do presépio

Um pequeno "fresco" da história quotidiana da sociedade portuguesa do século XX através das memórias de uma mulher do interior rural. Um retrato social paradigmático daquilo que foi a vida de tantas famílias durante o Estado Novo até aos dias de liberdade. Uma mulher do povo, forte, resiliente, "dura", decidida e cuja força interior (e física) é o motor e o pilar sólido da sua família. A protagonista tem um discurso intimista e através ela é construída toda a narrativa. As memórias fotográficas que vai discorrendo durante o livro evocam e focam todo esse passado: a dureza da vida interior rural, a migração para a capital, o sacamento, a miséria, a fome e as más condições de vida nos subúrbios da cidade, o trabalho ârduao do dia-a-dia, avida em ditadura e a política, a guerra colonial, a diferença entre classes e as desigualidades ociais, a vida em familia e a vida conjugal e as relações familiares.
A escrita é fluída, as frases são curtas mas com um peso de signficado muito forte, encerrando de uma maneira pragmática o pensamento do autor, contribuindo para o desenrolar da "estória" e tornando a leitura bastante agradavel e ritmada. Um livro interessante.


José Luís Sousa
(Grupo de Leitores da Biblioteca Municipal de Oeiras)

2 de fevereiro de 2013

Opinião sobre "A imperfeição do presépio" de António Manuel Marques


Romance bem escrito e bem contado. Narrado na 1ª pessoa por uma mulher, mãe de família, já com alguma idade. Esta mulher olha fotografias, que tem guardadas numa caixa, e vai recordando - primeiro, o dia do casamento, quando aparece fotografada ao lado da cunhada, porque o marido não gostava de ser fotografado; depois, outras imagens de outros momentos da vida: os filhos, dois dos quais combateram no Ultramar, os netos...
A omissão do noivo na imagem do casamento é o prenúncio da futura omissão do marido na vida da família, cujo pilar será sempre esta mulher. É ela quem escolhe o seu homem, por ser o mais bonito da aldeia, e é ela quem vai aturar-lhe o vício do álcool, a leveza da mão e o distanciamento no apoio e na educação dos filhos.
Vieram de uma aldeia ribatejana para uma barraca em Benfica, onde ela trabalhava a dias e geria a vida com determinação e uma tocante simplicidade que, nem por isso deixava de lado o saber, a eficiência, a honestidade. Esta mulher, cujo nome não sabemos, nem é preciso, representa as muitas mulheres de uma classe baixa que, numa dada época - ainda actual - fazem rolar a vida, a familia, a sociedade e o mundo. Uma mulher que enfrenta uma vida dura - muito dura - sozinha, sem se queixar e sem sombra de revolta - antes com natural aceitação e ternura pelo que a rodeia.
Esta mulher, que sabemos forte, desperta-nos, no entanto, uma carinho imenso, uma vontade de a sentar ao colo e de a abraçar, como se de uma criança se tratasse. Porque, com a natural simplicidadee das almas grandes, soube viver em dádiva, sem consciência de que cada dia que passava era mais um da sua epopeia.
Esta mulher, com a dimensão humana das figuras do presépio, não conseguiu nunca ver o seu próprio presépio completo - por uma razão ou outra faltava-lhe sempre uma peça.
O livro é escrito por um homem. Que sabe escrever. Que sabe das realidades sociais. Que sabe de mulheres. De algumas mulheres.Muito bom! 

M. Matos
(Grupo de Leitores da Biblioteca Municipal de Oeiras)

7 de dezembro de 2012

Opinião sobre "A imperfeição do presépio" de António Manuel Marques


António Manuel Marques - A imperfeição do presépio

Se na forma se poderão aduzir muitas considerações estilísticas (relato, novela, descrição, etc) já no fundo constitui uma obra em que a verdade, a simplicidade, a sensibilidade, o trato humano, me satisfizeram totalmente, como obra portuguesa, temendo embora que, na eventual tradução para francês, se perca muito do sabor popular, da verdade intrínseca do livro; mas pelo que conheço de bastantes franceses que contactei já penso que o cinema Verité e o realismo italiano os ajudará a perceber este livro.

Francisco A. Gomes
(Grupo de Leitores da Biblioteca Municipal de Oeiras)

13 de novembro de 2012

Opinião sobre "A imperfeição do presépio" de António Manuel Marques



António Manuel Marques - A imperfeição do presépio

Gostei da fluência do "discurso", do conteúdo do discurso, da boa caracterização das personagens anónimas, do ambiente e das circunstâncias envolventes.
Gostei das recordações de um mulher sem nome, com uma história de vida sofrida, pesada, com um discurso assumido e a missão de "mantê-los próximos". De um mulher "resignada", mas que partiu para a constituição de uma família com a LIBERDADE de escolher O SEU HOMEM. Uma resistente, com um discurso interior salvador, impulsionador, sem ressentimentos. Onde vai buscar a sua força. E que GOSTAVA DE LER. "Sempre e aprender", na vida e nas leituras.

Rosa Aquino 
(Grupo de Leitores da Biblioteca Municipal de Oeiras)

8 de novembro de 2012

Breve entrevista a António Manuel Marques - A imperfeição do presépio

1- O que representa, no contexto da sua obra, o livro "A Imperfeição do Presépio"?
R- Este livro inaugurou o meu investimento na ficção, pois a minha experiência editorial, até agora, tem sido exclusivamente de cariz académico e pedagógico. Apesar das características que distanciam esses tipos de escrita e de edição, vejo continuidade e complementaridade entre este livro e o meu trabalho anterior. Ainda que me agrade muito o rigor próprio da investigação e não tenha dificuldade em seguir os seus preceitos, fui sentindo, ao longo dos anos, que esse modelo restringia a minha vontade de questionar contextos, pessoas, pensamentos e vivências atuais e passadas. Por outro lado, como, desde 1987, tenho trabalhado em torno das questões da sexualidade, da saúde e, mais tarde, do género, tendencialmente, com recurso a entrevistas, fui acumulando memórias muito ricas acerca dos universos privados e públicos. Diria, portanto, que a escrita de ficção estimula a minha capacidade para imaginar e especular acerca do que ouço e observo, com liberdade total, algo que um trabalho académico sobre a mesma pessoa ou situação, em princípio, não permitiria. 

 2- Qual a ideia que esteve na origem deste livro?
R- Escrevi a maior parte deste livro há mais de uma década e o contexto ilustra bem o que quis dizer na questão anterior. Estava a redigir a tese de mestrado em psicologia social, sobre as representações sociais do/a parceiro/a conjugal ideal [As Árvores de Deus e as Suas Flores. Psicologia social das relações amorosas. Lisboa: Fim de Século, 1998]. Ainda que estivesse muito satisfeito com os resultados e sem dificuldade em cumprir as normas que caracterizam esses trabalhos, senti necessidade de ter um documento em segundo plano, ao qual recorria em momentos de cansaço. Nele fui agregando memórias soltas da minha infância e, sem o ter planeado, assumindo uma voz no feminino e outra no masculino, sempre em torno da conjugalidade, da paternidade e da maternidade. Cedo me dei conta de que a ‘voz da mulher’ era bem mais rica e estimulante e foi essa quem predominou, passado a dominar a minha escrita e expressividade. Através dela pude recuperar muitas vivências diretas, mas também outras que me foram narradas, uma vez que o tempo da ação cobre praticamente todo o século XX. Através desse livro concretizo o desejo de dar voz e visibilidade àquelas e àqueles que, em geral, estão mais obscurecidos na produção literária atual, ainda que, felizmente, alguns autores lhe dediquem atenção. Não tenho a pretensão de fomentar um possível neo-neo realismo, por não ter qualidades para tal, mas defendo a necessidade de retratar a complexidade humana, num mundo desigual e injusto.

3- Pensando no futuro: o que está a escrever neste momento?
R- Com este livro não esgotei o meu interesse pelo passado nacional e por essas vozes anónimas. Por isso, tenho já bastante adiantado outro original, igualmente centrado no universo do feminino, desta vez com mais vozes/personagens, localizado em Lisboa, num tempo que considero fascinante: a primeira metade da década de 1970. Espero conseguir transmitir a quem queira ler a razão desse fascínio. 

Fonte: Novos Livros

18 de julho de 2012

António Manuel Marques - "A Imperfeição do Presépio"

Autor: António Manuel Marques
Título: A Imperfeição do Presépio

BIOGRAFIA
António Manuel Marques nasceu em Lisboa em 1961. É docente do ensino superior e tem investigado e publicado nos domínios da sexualidade, saúde e psicologia social do género. Ao dar início à escrita literária, continua a explorar os temas em que tem investido, fazendo uso da liberdade estilística e narrativa que a ordem académica não aconselha ou não permite






 
RESUMO


«O casamento. Do meu casamento não tenho grande coisa a dizer. De outra maneira, mas era uma noiva, pois claro. Qual branco? Lá não era assim. Éramos simples, não tínhamos direito a essas coisas que há hoje. Os vestidos a arrojar pelo chão, essa fantochada toda. Nem eu me via metida nessas andanças. Naquele tempo, era tudo simples.»
Assim começa a narrativa de vida de uma mulher vulgar, mas única, que nos guia pela pequena História portuguesa do século XX. A sua versão na primeira pessoa é parcial, mas nem por isso menos representativa de memórias coletivas acerca do interior rural e da migração para uma capital que, aos poucos, alargou os seus limites para espaços menos urbanizados. O autor serve-se do discurso intimista e reflexivo da protagonista para construir um olhar feminino sobre os universos conjugal, familiar e do trabalho, recorrendo, pontualmente, a publicações da época e, sobretudo, aos saberes de figuras reais com quem se cruzou direta e indiretamente.