14 de novembro de 2012

Ana Miranda - O Diabo é um homem bom

Autor: Ana Miranda
Título: O Diabo é um homem bom

BIOGRAFIA


Ana Miranda nasceu em Bragança em Abril de 1967. Estudou Literatura Portuguesa na Universidade Nova de Lisboa, mas foi do Jornalismo que fez profissão. 
Há 22 anos que se divide, com igual paixão, pela televisão, imprensa e rádio. 
Foi um projecto de televisão que a levou para Lyon, França, onde vive desde 1999 e é jornalista de política internacional.
A escrita era um projecto à espera, desde que participou num dos primeiros concursos de Jovens criadores, em 1996, tendo conquistado o prémio de honra que lhe permitiu participar na Bienal da Guarda, 1997.
O Diabo é um Homem Bom é a sua primeira obra publicada.


SINOPSE


O terreno de jogo estendia-se às searas indomáveis de centeio e trigo, atravessadas por labirintos e túneis vegetais, onde jogávamos às escondidas. Foi numa dessas brincadeiras que um casaquinho de lã, azul-pálido, azul-bébe, me conduziu ao primeiro morto. Ao primeiro nado-morto da minha longa vida de mortos.

O corpo morria asfixiado num saco de plástico, ensanguentado. O vento chicoteava as espigas e escoava o fedor da morte, pelo ventre da terra revolvida. Foi também o vento que denunciou o barulho de passos nas proximidades, ainda a tempo de tornar-me invisível. Por entre as espigas altas, vi a figura da minha mãe crescer, passo a passo. Vi os seus chinelos rasos de trazer por casa a pisar as hastes amareladas, mas ainda tenras do trigal. Usava o mesmo avental, estampado de um violento colorido de frutos vermelhos, que lhe vira vestir na manhã desse dia. Como era seu hábito, as mãos vinham abrigadas sob o avental, como se transportassem um segredo. Em casa, era o gesto que calava as cartas dos seus amantes. Ela não sabia que eu sabia do seu disfarce.

13 de novembro de 2012

Opinião sobre "A imperfeição do presépio" de António Manuel Marques



António Manuel Marques - A imperfeição do presépio

Gostei da fluência do "discurso", do conteúdo do discurso, da boa caracterização das personagens anónimas, do ambiente e das circunstâncias envolventes.
Gostei das recordações de um mulher sem nome, com uma história de vida sofrida, pesada, com um discurso assumido e a missão de "mantê-los próximos". De um mulher "resignada", mas que partiu para a constituição de uma família com a LIBERDADE de escolher O SEU HOMEM. Uma resistente, com um discurso interior salvador, impulsionador, sem ressentimentos. Onde vai buscar a sua força. E que GOSTAVA DE LER. "Sempre e aprender", na vida e nas leituras.

Rosa Aquino 
(Grupo de Leitores da Biblioteca Municipal de Oeiras)

12 de novembro de 2012

Opiniões sobre "Travessa d' Abençoada" de João Bouza da Costa


João Bouza da Costa - Travessa d'Abençoada

Gostei desta escrita que tratando assuntos invulgares, os retrata com capacidade descritiva invulgar.Todos os capítulos com a sequência horária (agarram o leitor) como se fossem contos dispersos; um dos elos é a droga e os seus consumidores. A Travessa com os seus habitantes, agora tão dispares, não parece ficção. Há na cidade de Lisboa esta realidade. O autor demonstra uma cultura selectiva, quer na área musical, na poética e na plástica. Sensível quando é necessário; rude e sem contemplações q.b.

Maria Aguiar
(Grupo de Leitores da Biblioteca Municipal de Oeiras)

8 de novembro de 2012

Breve entrevista a António Manuel Marques - A imperfeição do presépio

1- O que representa, no contexto da sua obra, o livro "A Imperfeição do Presépio"?
R- Este livro inaugurou o meu investimento na ficção, pois a minha experiência editorial, até agora, tem sido exclusivamente de cariz académico e pedagógico. Apesar das características que distanciam esses tipos de escrita e de edição, vejo continuidade e complementaridade entre este livro e o meu trabalho anterior. Ainda que me agrade muito o rigor próprio da investigação e não tenha dificuldade em seguir os seus preceitos, fui sentindo, ao longo dos anos, que esse modelo restringia a minha vontade de questionar contextos, pessoas, pensamentos e vivências atuais e passadas. Por outro lado, como, desde 1987, tenho trabalhado em torno das questões da sexualidade, da saúde e, mais tarde, do género, tendencialmente, com recurso a entrevistas, fui acumulando memórias muito ricas acerca dos universos privados e públicos. Diria, portanto, que a escrita de ficção estimula a minha capacidade para imaginar e especular acerca do que ouço e observo, com liberdade total, algo que um trabalho académico sobre a mesma pessoa ou situação, em princípio, não permitiria. 

 2- Qual a ideia que esteve na origem deste livro?
R- Escrevi a maior parte deste livro há mais de uma década e o contexto ilustra bem o que quis dizer na questão anterior. Estava a redigir a tese de mestrado em psicologia social, sobre as representações sociais do/a parceiro/a conjugal ideal [As Árvores de Deus e as Suas Flores. Psicologia social das relações amorosas. Lisboa: Fim de Século, 1998]. Ainda que estivesse muito satisfeito com os resultados e sem dificuldade em cumprir as normas que caracterizam esses trabalhos, senti necessidade de ter um documento em segundo plano, ao qual recorria em momentos de cansaço. Nele fui agregando memórias soltas da minha infância e, sem o ter planeado, assumindo uma voz no feminino e outra no masculino, sempre em torno da conjugalidade, da paternidade e da maternidade. Cedo me dei conta de que a ‘voz da mulher’ era bem mais rica e estimulante e foi essa quem predominou, passado a dominar a minha escrita e expressividade. Através dela pude recuperar muitas vivências diretas, mas também outras que me foram narradas, uma vez que o tempo da ação cobre praticamente todo o século XX. Através desse livro concretizo o desejo de dar voz e visibilidade àquelas e àqueles que, em geral, estão mais obscurecidos na produção literária atual, ainda que, felizmente, alguns autores lhe dediquem atenção. Não tenho a pretensão de fomentar um possível neo-neo realismo, por não ter qualidades para tal, mas defendo a necessidade de retratar a complexidade humana, num mundo desigual e injusto.

3- Pensando no futuro: o que está a escrever neste momento?
R- Com este livro não esgotei o meu interesse pelo passado nacional e por essas vozes anónimas. Por isso, tenho já bastante adiantado outro original, igualmente centrado no universo do feminino, desta vez com mais vozes/personagens, localizado em Lisboa, num tempo que considero fascinante: a primeira metade da década de 1970. Espero conseguir transmitir a quem queira ler a razão desse fascínio. 

Fonte: Novos Livros

1 de novembro de 2012

João Rebocho Pais - "O intrínseco de manolo"

Sobre o livro - O intrínseco de manolo de João Rebocho Pais, uma opinião da editora Maria do Rosário Pedreira no blogue Horas Extraordinárias:

"Já aqui falei de O Intrínseco de Manolo, um romance de estreia muito divertido e acutilante publicado recentemente com a chancela da Teorema. É a história de um casal alentejano – o Manel e a Maria – que a mediocridade da aldeia maldiz e acusa, mas cujo amor parece resistir a todas as safadezas, se não metermos a morte nisso. O seu autor, João Rebocho Pais, leitor apaixonado que passa demasiadas horas nos aviões, confessa que nunca tinha pensado publicar profissionalmente um livro, mas ainda bem que se enganou, porque o romance tem personagens que ficarão na nossa memória para sempre, por boas e más razões (um tasqueiro vestido de enfermeira e maquilhado não se esquece do pé para a mão). Amanhã, vamos ouvir, por exemplo, o que pensa Luís Filipe Borges da obra na sessão de apresentação pública que terá lugar na Livraria Buchholz pelas 19h00. Tenho alguma curiosidade em saber se a tónica será nas personagens algo disfuncionais e cómicas como Tonho ou Idalina, se, pelo contrário, o apresentador se deterá nas diferenças entre os Manéis e as Marias de Cousa Vã e as Conchitas e Manolos de Ciudad del Sol, ali mesmo ao lado. Mas, para isso, é mesmo preciso ir lá. Estão todos convidados."

31 de outubro de 2012

Opinião sobre "Demência" de Célia Correia Loureiro

Célia Correia Loureiro - Demência

Desenvolvendo-se essencialmente em torno de um caso de violência doméstica, o tema é aqui tratado com uma tamanha vulgaridade e com relato de desinteressantes e repetidos pormenores que, nada acrescentando à história, tornam o livro banal e fastidioso.

Maria Luzia Pacheco
(Grupo de Leitores da Biblioteca Municipal de Oeiras)

30 de outubro de 2012

Opinião sobre "O teu rosto será o último" de João Ricardo Pedro

João Ricardo Pedro - "O teu rosto será o último"

É um romance com uma estrutura de pequenos episódios, sempre com o mesmo protagonista. Em cada episódio vão aparecendo diferentes personagens, mas todas elas com elos familiares e/ou afectivos. Todas elas vão ajudando a desenredar "o fio da meada" daquela família, naquele tempo.
Uma linguagem cuidada e por vezes cheia de recursos estilo mas também uma linguagem coloquial, fazendo destacar personagens ou situações.

Irene Cardona
(Grupo de Leitores da Biblioteca Municipal de Oeiras)

29 de outubro de 2012

Opinião sobre "O intrínseco de Manolo" de João Rebocho Pais

João Rebocho Pais - "O intrínseco de Manolo"


Portugal, esta pequena aldeia em que se tomam as aparências pela realidade. A vida de cada vizinho, do outro, é sempre um exemplo do que está mal em contradição com aquilo que eu faço, não assumido e tanta vez escondido.

Rouba-se , mente-se, perverte-se,mas  ninguém é pecador, a não ser o outro.  Cá eu nem pensar, os outros ,sim. 

Arnaldo passa por ser um senhor, Manolo por ser corno. Idalina assume a sua escolha  – "Era  porca e pronto. Que se lixasse que se fodesse, que fosse morrer longe a cambada que por  ali crescia como ervas daninhas, a chusma de amorfos feito gente, a manada de falsas puritanas."

Se algum de nós tivesse o poder do narrador, de espreitar verdadeiramente a realidade, seríamos mais capazes de interromper as deliciosas histórias de intriga que nos contam com um  não é bem assim, sabe-se lá se, e até de nos olharmos ao espelho da verdade.

Ninguém é tão magnificamente mau nem maravilhosamente bom. Há sempre um outro lado das coisas. Julgamentos precipitados divertem-nos, à mesa da tasca do Toino ou em assembleias bem frequentadas .

E se há uma moral nesta história, que se conta com toda a ironia e ternura e que amiúde nos é servida em pratos nojentos picados por varejeiras ou cheiro a esgoto de latrina mal-cheirosa, é que nada é o que parece. Todos temos um íntrinseco. E muito poucos lá chegam.

Um hiper-realismo mesclado de apelo melancólico à natureza, seja esta  a azinheira ou a paisagem humana. Num estilo muito apelativo pelas emoções e sensações que provocam no leitor, da nostalgia à repulsa, ao vómito, ao riso e ao sorriso, que remete para o surreal ou  mesmo a estéticas  a que alguns chamariam “da crueldade”. 

Fiquei fã.

Maria João Carrilho
(Grupo de Leitores da Biblioteca Municipal de Oeiras)

25 de outubro de 2012

Opinião sobre "A vida passou por aqui" de Luís Francisco

Luís Francisco - "A vida passou por aqui"

São encontros de vidas cansadas umas, mansas outras. Todas elas em busca de algo que as preencha e realize os seus sonhos.
Luis Francisco surpreende-nos com uma escrita que nos prende e agarra por dentro; é arte que toca e nos seduz.

Augusto Freire Martins
(Grupo de Leitores da Biblioteca Municipal de Oeiras)

24 de outubro de 2012

Opinião sobre "O intrínseco de Manolo" de João Rebocho Pais

João Rebocho Pais - "O intrínseco de Manolo"


Gostei desta escrita! Até o título nos leva a questionar!
A azinheira tem um papel preponderante no íntimo do protagonista. As palavras, melhor os palavrões, não chocam, porque o autor sabe aplicá-los.
Se ainda houvesse dúvidas quanto à qualidade da escrita bastará ler os 2 últimos capítulos, "A família" e "Epílogo" para ficarmos rendidoas a este primeiro romance do João que merece ir apresentá-lo a Chambery.


Maria Aguiar 
(Grupo de Leitores da Biblioteca Municipal de Oeiras)

22 de outubro de 2012

Luís Francisco - A vida passou por aqui

Autor: Luís Francisco
Título: A vida passou por aqui

BIOGRAFIA




Luís Francisco nasceu em 1964. Actualmente, é jornalista do diário Público, tendo trabalhado no Expresso e na RTP. Escreveu guiões para duas longas-metragens, um deles em co-autoria. A Vida Passou por Aqui é a sua estreia na ficção.








SINOPSE


Que relação poderá existir entre um motorista de táxi à beira da reforma, um toxicodependente que rouba carteiras, um arquitecto com mão leve, uma solteirona apostada em fazer o bem ou uma rapariga que disse aos pais que andava na faculdade e, afinal, vive à custa de um homem casado? E entre um pinga-amor sempre agarrado ao telefone, uma mulher que só tem olhos para o filho, um empresário de sucesso a criar barriga e uma mulher-a-dias acusada de um crime que não cometeu? Aparentemente, não existem quaisquer laços entre estas e as outras personagens deste romance, mas a verdade é que os nós são muitos - e quase sempre difíceis de desatar. Numa história com uma construção extremamente original, em que desfilam figuras muito diferentes, mas todas inesquecíveis, A Vida Passou por Aqui é uma espécie de confirmação da teoria do efeito borboleta: porque, na teia que é a vida, sempre que alguém puxa um fio, mesmo sem se dar conta, acaba por embaraçar, mais do que gostaria, as vidas alheias…

30 de agosto de 2012

Ana Sofia Fonseca - "Como carne em pedra quente"

Autor: Ana Sofia Fonseca
Título: Como carne em pedra quente


BIOGRAFIA

 
SINOPSE

Laura, 45 anos. Estas páginas são ela. Mulher entre a vida e a morte. Presa entre o passado e o futuro. A tentar gravar quem foi - para se deixar à filha, para não morrer por inteiro, para selar contas com a memória. À beira do fim, a reviver o início. Quase a loucura, quase a lucidez. A sombra da mãe. A infância em África, a vida tecida em Lisboa. A doença a atingir a normalidade dos dias. A armadilha de um grande amor. E a lembrança da avó. Histórias a cruzarem-se, a darem as mãos sem aviso. Porque, na vida, todas as realidades são vizinhas.4este livro é uma viagem com partida da cabeça de uma mulher, passagem pelas vidas dos que a rodeiam e pelo país, do Estado Novo até hoje.

Alexandra Lucas Coelho apresenta "E a noite roda" - RTP

Alexandra Lucas Coelho apresenta "E a noite roda" - Cultura - Notícias - RTP
[Vídeo]

27 de agosto de 2012

João Rebocho Pais - "O intrínseco de manolo"

Autor: João Rebocho Pais
Título: O intrínseco de manolo


BIOGRAFIA

João Rebocho Pais nasceu em Lisboa em 1962. Cresceu no bairro de Olivais Sul, terra fértil em personalidades de vulto, de filantropos a vigaristas, de homens de ciência e cultura a comerciantes de mercadorias ilícitas. Entrou para a aviação comercial em 1985, trabalhando há mais de vinte cinco anos como comissário de bordo, o que lhe tem permitido conhecer culturas muito disintas e inspiradoras. Tem dois filhos, Miguel e Francisco, sem os quais nada entende. Nunca imaginou escrever uma história para tanta gente. Até agora, os livros tinham sido apenas uma doce e viciante dependência.O Intrínseco de Manolo é a sua estreia no romance.
 
 
 
SINOPSE
 
Na aldeia alentejana de Cousa Vã - vizinha da espanhola Ciudad del Sol - o nome de Manolo anda nas bocas escancaradas dos que passam as tardes na tasca a aviar minis, quiçá para que ninguém repare no que realmente se passa em suas casas - e talvez seja melhor assim. É, porém, facto indesmentível que Maria tem o hábito de desaparecer às sextas-feiras - e isso basta para que a mediocridade omnipresente faça do marido um adornado e da chacota um estranho alívio para a dureza dos dias. Manolo refugia-se do falatório acusador à sombra de uma azinheira secular, único ser vivo com quem pode dividir agora as suas mágoas; e, embora certo da virtude da sua Maria, não ignora a missiva que o carteiro lhe deixou em casa nessa manhã e que trazia - pois é - remetente espanhol… No jogo repetido que é o dia-a-dia dos lugares pequenos - onde ninguém ganha e quase todos perdem -, a descoberta da improvável verdade trará, mesmo assim, a Manolo a oportunidade de mostrar aos conterrâneos, de forma anónima, o seu intrínseco, seguindo os ensinamentos dos que, sendo velhos ou já desaparecidos, são parte importante da sua história - e da de Cousa Vã. Com um trabalho notável na composição das figuras e uma recuperação inteligente da linguagem popular de um Alentejo quase mítico, João Rebocho Pais estreia-se na ficção com um romance terno, mágico e, ocasionalmente, escatológico sobre o poder da excepção sobre a regra.